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Todo o mundo

Nada de colegas de classe. Nem de professor à frente da sala. As aulas estão na tela do computador na forma de vídeos e podem ser vistas quantas vezes forem necessárias no lugar e no horário mais convenientes. Mas, atenção: há provas e trabalhos como qualquer curso e exige-se disciplina extra de estudo. Um forma de aprendizado existente há quase 60 anos anuncia novos contornos para o ensino superior no Brasil. O elearning tem sustentado o aumento de matrículas na graduação tendo. A expectativa é de que, diante de um terreno fértil moldado por nova regulamentação do setor, crise econômica e mudanças nas regras do financiamento público estudantil, a EAD saia do patamar atual de 18,6% para 50% do total de matrículas em faculdades e universidades daqui a pouco mais de 10 anos, se igualando aos números do ensino presencial.


De 2010 a 2016, as matrículas da educação a distância em instituições particulares tiveram um salto 4 vezes maior que as registradas no ensino presencial. Os números estão no estudo Educação Superior: contexto e perspectivas, feito pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) em parceria com a empresa de pesquisas educacionais Educa Insights. O levantamento usou dados do Censo da Educação Superior, feito anualmente pelo Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), e do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) com o objetivo de fazer um diagnóstico da educação superior.

No período analisado, a evolução das matrículas presenciais em instituições particulares foi de 11,58%, ante 45,33% verificado na EAD. Em números absolutos, o ensino fora da sala de aula convencional representa ainda menos de 1/4 do total de matrículas em universidades e faculdades, mas, num período de 7 anos, a quantidade de alunos que optaram por estudar em casa dobrou. Já aqueles que foram para a sala de aula, apenas 10%. Quando analisado ano a ano, a média de crescimento foi de 2,8%. Enquanto a modalidade presencial registrou por ano 1,8% de aumento, a distância alcançou 6,4%.

As informações referentes aos últimos dois anos (2015 para 2016) são ainda mais reveladoras: as matrículas na graduação tiveram crescimento tímido de apenas 0,18%. E, mesmo assim, puxadas pela EAD: enquanto nos cursos presenciais a queda foi de 2,6%, na modalidade distância o crescimento foi 61 vezes mais que a média geral, o que representa um percentual de 11%. De acordo com o diretor-executivo da Abmes, Sólon Caldas, o impulso foi proporcionado pelos cortes no Programa de Financiamento Estudantil (Fies), ocorridos em 2015. “O corte na política pública refletiu no presencial, afirma. A aposta é de que a retração do presencial será verificada no próximo Censo para o período 2017-2018. “A taxa de matrículas só será positiva se a EAD puxar novamente.”

“Primeiro, a restrição de financiamento do governo reduziu a possibilidade de os alunos menos favorecidos financeiramente terem acesso ao ensino presencial. Segundo, o decreto no fim do ano passado regulamentando a EAD possibilitou a abertura de polos para instituições que demonstram qualidade. Haverá, assim, mais oferta dessa modalidade em municípios e regiões onde ela ainda não estava acessível”, afirma. O Decreto 9.235, de 15 de dezembro de 2017, dispõe sobre a regulação, supervisão e avaliação das instituições de educação superior nas modalidades presencial e a distância. “O decreto desburocratizou o processo, que era muito engessado e não permitia a flexibilidade que as mudanças na sociedade requerem. As mudanças permitem inovar e atender à demanda de mercado e da população em geral. Todos os atores envolvidos precisarão se adequar e reformular para receber os alunos num novo contexto. Mas, sociedade, governo, alunos e instituições devem estar atentos para uma educação de qualidade”, ressalta.

A expectativa de crescimento se baseia na restrição do financiamento e no aumento da oferta de EAD. “O aluno quer estudar, mas esbarra no pagamento das mensalidades. Enquanto o governo não mudar a política pública, isso não vai ser revertido. Pelo cenário hoje, quem pode pagar já está estudando, ou seja, quem tem bolsa do Prouni, Fies ou paga com recurso próprio. Há uma parcela grande represada”, diz. Para o diretor da Abmes, é preciso pensar a educação como investimento e não como gasto ou ônus. “Caso contrário, não avançaremos nem nas metas do PNE (Plano Nacional de Educação) nem no desenvolvimento do país, que passa pela educação”, alerta Caldas. O PNE, aliás, tem metas ousadas para os próximos anos. Uma delas estipula que, até 2024, a taxa bruta de matrículas na educação superior seja elevada para, no mínimo, 50% do grupo populacional de 18 a 24 anos de idade. O dado mais recente do Observatório do PNE mostra que, em 2015, o percentual brasileiro era de 34,6% e o mineiro, de 35,7%. 

O próprio secretário de Regulação e Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação (MEC), Henrique Sartori, admite que a flexibilização das regras para as instituições pode facilitar o crescimento da educação a distância e, também, impulsionar o caminho rumo ao cumprimento das metas. Segundo ele, projeções não oficiais dão conta de que, por volta de 2032, a diferença de quase 5 milhões de matrículas existente entre os cursos presencial e a distância esteja equilibrada. “O elearning tem agradado a quem está no mercado e precisa de flexibilidade de horário. Hoje, o acesso à internet reflete na qualidade de ensino e metodologia e torna esse ensino conectado às expectativas dos alunos, além de ser mais aprazível”, afirma. “As novas gerações já estão acostumadas com a tecnologia e, por isso, encaram um ambiente escolar moldado por essa plataforma de maneira totalmente diferente. Assistir a uma videoaula ou ler um PDF é corriqueiro para esses jovens”, diz. Quando questionado sobre o risco de criação desenfreada de polos de educação depois das novas regras, Sartori rebateu dizendo que a política pública prima por padrões de qualidade. “Para existir e permanecer a instituição deve aumentar ainda mais a qualidade. O objetivo é facilitar as regras para quem tem desempenho acima da média.” 

Estudante de administração pela PUC Minas, Fernanda Paoli, de 24 anos, trocou a faculdade presencial pela virtual em meados do curso, no qual se forma este semestre. O motivo: a flexibilidade, principalmente para quem trabalhava o dia inteiro e ia para a universidade à noite. “Eu praticamente não ficava em casa. Ia só para dormir. Agora, posso estudar no dia e na hora mais convenientes. Como tenho pouco tempo para descansar, o fato de poder estar no meu ambiente é um alívio”, diz. Segundo Fernanda, depois de analisada a facilidade, outros fatores pesaram, incluindo o financeiro. A jovem conta ainda que em termos de qualidade de ensino não há diferença. “No meu caso, que consigo estudar e me organizar, é muito melhor. Mas o elearning é muito difícil, porque requer muito mais disciplina. No curso presencial, muitas pessoas ficam na sala, mas não prestam atenção. Não tenho como fingir que estou vendo a aula.”

From Jornal Estado de Minas

[ Modificado: segunda, 27 Ago 2018, 16:25 ]